Um grito das mulheres Kaiowá e Guarani contra os colonialismos de dominação da terra, dos saberes e do corpo

Em carta após assembleia, que aconteceu de 10 e 14 de julho na Reserva Indígena de Amambai (MS), mulheres repudiam as violências do Estado nas mais diversas esferas de poder

Foto: Ruy Sposati

O vozear de protesto é uníssono. Denuncia as políticas governamentais anti-indígenas que por diversas formas de dominação mantêm administrações coloniais. São práticas que desrespeitam “o modo de ser Guarani e Kaiowá” em políticas sobre a terra, educação e dominação dos corpos dos povos. O grito é resultado do VI Kuñangue Aty Guasu, encontro das mulheres Kaiowá e Guarani. Em carta após assembleia, que aconteceu de 10 e 14 de julho na Reserva Indígena de Amambai (MS), mulheres repudiam as violências do Estado nas mais diversas esferas de poder.

“Vivemos a insegurança pública no nosso cotidiano, tendo que lidar com o racismo, o preconceito, a violação de nossos corpos e de nossa cultura, com as violências dos não indígenas quando tentamos utilizar os dispositivos do estado que oficialmente deveriam nos proteger enquanto mulheres”. – Leia a carta final do encontro.

O documento encaminhado para as esferas competentes pelas políticas indígenas do Governo questiona às ações anti-indígenas do Estado brasileiro que confiscou a nação Guarani em “chiqueiros”.  “As reservas estão superpopulosas e não dispõem de condições de vida para a realização de nosso modo de ser”, pontua a carta. “Desde os anos 80, cansados desta realidade, iniciamos as retomadas das terras de nossos antepassados e começamos a recuperar a nossa dignidade humana, o nosso modo de ser, nossas matas, rios e nossas rezas”, reafirmam ao manter apoio as retomadas dos territórios tradicionais.

Retomadas: “Foi esta a forma que nós indígenas Kaiowa e Guarani encontramos para nos libertar das cercas do Estado e garantir o futuro de nosso povo”.

A quase total paralisação dos procedimentos demarcatórios de terras indígenas no estado do Mato Grosso do Sul demonstra a forte atuação de políticos locais contra os direitos tradicionais dos povos da região, reforçado pelos laços do governo de Michel Temer com o agronegócio. No MS, 74 terras indígenas encontram sem nenhuma providência no processo demarcatório.

“A judicialização dos processos de demarcação de nossos tekoha é uma afronta a nossa luta”.

A Terra Indígena Guyraroka, em Caarapó, é uma das 9 que estavam declaradas. O descaso com a política de homologação dos territórios tradicionais faz do estado o segundo com maior quantidade de casos de violência registrados em 2016: 18 assassinatos segundo o Relatório de Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, publicação anual do Cimi.  “Sem a demarcação das nossas terras, nós mulheres guarani e kaiowa não poderemos ter uma vida livre da violência”.

Uma década

Em 2017 um Compromisso de Ajuste de Conduta (CAC) firmado entre o Ministério Público Federal e União assumia o compromisso de identificação e demarcação do território tradicional de habitação das famílias kaiowá e guarani. Passados uma década, nada avançou no estado conhecido por domínio do latifúndio. “Exigimos que o CAC – Compromisso de Ajustamento de Conduta, firmado em 2007 seja cumprido e nossas terras demarcadas e devolvidas a nós, para que nosso povo não continue morrendo na mão do agronegócio, dos latifundiários e do estado”, escreve o documento. O MS tem 92% do seu território como propriedade privada, dos quais 83% são latifúndios.

POR GUILHERME CAVALLI, ASCOM CIMI – Leia a matéria na integra clicando aqui

CIMI- Conselho Idigenista Missionário