Atingidas por barragem reúnem parcerias para somar na luta

Em ato público durante o “Encontro de Mulheres e crianças Atingidas do Rio Doce”, as atingidas da barragem de Fundão, em Mariana, reuniram diversos representantes de movimentos sociais, sindicais e organizações parceiras para fortalecer a articulação em torno da luta, que completa 3 anos do crime.

Crédito foto: Lorena Zschabee/Mídia Ninja

As mulheres atingidas pelo crime da Samarco realizaram um ato político com representantes de diversos movimentos sociais e parceiros durante o “Encontro de Mulheres e crianças Atingidas do Rio Doce”, que acontece em Mariana, nos dias 4 e 5 de novembro. Vindas de toda a bacia do Rio Doce e do litoral do Espírito Santo, as mulheres organizadas no Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB) reuniram as organizações parceiras para somar forças à luta, denunciando que são as principais vítimas do crime da Samarco e as menos reconhecidas.

As mulheres criticam a lentidão e o descaso da Fundação Renova e exigem o reconhecimento de todas as atingidas na reparação. Antes do rompimento da barragem, muitas delas não tinham comprovação de renda fixa, ou documentos de propriedades das casas ou terrenos onde moravam, por isso não são incluídas na reparação ou são incluídas como dependentes dos homens. Outras tiveram os modos de vida destruídos e perderam o trabalho e a fonte de renda. Muitas estão doentes ou cuidam de familiares que adoeceram pela contaminação da água e dos alimentos, ou ainda por problemas psicológicos devido ao sofrimento que a lama causou.

A indígena Josenita Pego, conta que sua aldeia e as outras que vivem no território de etnia guarani e tupiniquim no Espírito Santo, há muito tempo vêm sofrendo com a ação de grandes empresas. Primeiro com a retirada da madeira, o que prejudicou a produção do artesanato, depois com a construção do porto, que impactou na praia e, com isso, na coleta de mariscos, em seguida foram encurralados pela monocultura do eucalipto. Por fim, o rompimento da barragem de rejeitos da Samarco/Vale/BHP, há 3 anos, atingiu em cheio os modos de vida, a saúde e a fonte de renda dos indígenas.

“Hoje faz três anos da primeira negociação numa sala fechada”, lembra Dona Zezé, como é mais conhecida. Ela conta que a Samarco prometeu fazer várias coisas pelos atingidos, como construir casas, postos de saúde, pagar os gastos com hospital, dar faculdade aos jovens, saneamento básico, emprego. “Muita coisa foi prometida e até hoje nada! Fizemos vários encontros com a Samarco, mas nada aconteceu. E rapidamente eles mudaram o nome para Renova. E essa Renova também não fez nada”, diz indignada.

Dona Zezé sabe que algumas pessoas podem pensar que eles querem viver do dinheiro da Samarco, mas afirma categoricamente que não. “Sou artesã, mas de onde vou tirar a fibra para meu trabalho?”, questiona. Antes da lama, ela conta que retirava o material de uma área que media aproximadamente 3 campos de futebol, chamada pelos indígenas de cantinho da natureza. “Hoje só tem capim. Quando a água entrou foi uma enchente horrível e tampou tudo, a água matou toda a fibra. Não conseguimos tirar nada para fazer nem um colar, nem uma canga ou uma esteira”, lamenta. A indígena sabe que os danos não serão recuperados nos próximos anos. “Não é em 30 anos que esse prejuízo vai sair das nossas águas. Esse crime não vai sair dos mangues, nem das águas. Queremos uma solução, queremos que algo seja feito por nós”, reivindica.

O ato político contou com a participação da militante do MAB, Aline Ruas; da presidente da CUT Minas, eleita deputada estadual, Beatriz Cerqueira; do padre Geraldo Martins, da Arquidiocese de Mariana; da indígena Josenita Pego; do presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios de Minas Gerais (Sintect-MG), Robson Gomes; da coordenadora do Fórum Sindical e Popular de Saúde do Trabalhador, Marta de Freitas; da diretora do Sindipetro-MG, Márcia Lima; da militante do Levante Popular da Juventude, Natália Santos; da representante do mandato do deputado estadual Rogério Correia (PT), Aída; da assessora técnica da AEDAS (Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social), Verônica; e das crianças que representaram a Ciranda do MAB, Ana Beatriz, de 4 anos, do Espírito Santo, e Júlia, de 11 anos, de Barra Longa.

 

Enfrentamentos e disputas

A criminalização e a deslegitimação das atingidas e atingidos pela lama da barragem tem sido algumas das estratégias das mineradoras na disputa pela narrativa do crime. Para Beatriz Cerqueira, presidente da CUT Minas e eleita deputada estadual, não deixar que eles vençam na narrativa sobre o que aconteceu no Rio Doce é uma tarefa necessária. Para cumpri-la é preciso evidenciar sempre os nomes dos autores do crime, afirma padre Geraldo Martins, da Arquidiocese de Mariana. “A Fundação Renova foi criada para que se esqueça quem cometeu o crime, para esconder o nome das empresas Samarco, BHP e Vale”, explica.

O padre chama atenção para o aprendizado que o processo da luta tem proporcionado. “Hoje, grande parte dos atingidos tem outra visão da vida e da luta. Muitos já são capazes de dizer que o que aconteceu foi um crime”, explica. Ele conclama as atingidas e atingidos da bacia do Rio Doce a se articular para lutar por seus direitos.

Nesse contexto, a deputada estadual eleita Beatriz Cerqueira assumiu o compromisso de construir uma CPI da mineração em Minas Gerais. Ela ressaltou que a Assembleia Legislativa deve isso ao povo e às mulheres mineiras, já que a vida de ninguém foi a mesma depois da lama. “Precisamos ocupar esse lugar para que os criminosos sejam punidos e para rever o modelo de mineração que afeta tantas famílias e tantas vidas”, afirma.

Crédito foto: Lorena Zschabee/Mídia Ninja

Organização popular: elas não param de lutar

Os movimentos populares têm sido criminalizados por lutarem por direitos, mas isso não tem impedido as mulheres de continuar a lutar. A militante do MAB, Aline Ruas, avalia que as mulheres não podem parar a luta diante da difícil conjuntura política. “É preciso construir um real plano de desenvolvimento para Minas Gerais e para o Brasil, que coloque a soberania e o ser humano em primeiro plano”, aponta.

Aline afirma que os movimentos populares são contra qualquer tipo de criminalização, racismo, homofobia e preconceito. “Não vamos admitir isso na sociedade brasileira, que é muito bonita por ser como é”, garante. Ela ressalta que a luta é um direito e conclama os atingidos e atingidas na bacia do Rio Doce a disputar as ideias em todos os espaços. “Somos exemplo de luta e, por isso, temos que contagiar todo o povo brasileiro, por mais difícil que seja a conjuntura”, convoca. Para isso, Aline explica que a Frente Brasil Popular é a principal ferramenta para construir lutas que garantam o direito da classe trabalhadora.

No enfrentamento à criminalização, ao ódio e à violência como forma de fazer política, Beatriz Cerqueira propõe um gesto concreto durante o ato político: “No momento do ódio não há nada mais revolucionário do que o afeto. Convido todas a se levantar e abraçar a companheira ao lado. Nos abracemos, nos fortalecemos, entendendo a necessidade de cada uma que está fazendo essa luta”.

Por Lívia Bacelete, da Cáritas Brasileira Regional Minas Gerais