Cinema negro não está nos shoppings

Uma reportagem do Projeto Enquadro:
o cinema negro de BH em retratos jornalísticos

Uma grande sala de projeções com poltronas confortáveis, luz controlada e projetores profissionais: o cinema é definitivamente um dos passatempos preferidos pelos brasileiros. Segundo dados da JLeiva, consultoria especializada em cultura, ao longo do ano de 2017, 64% dos brasileiros afirmaram ter frequentando salas de cinema nos doze meses anteriores: trata-se da segunda forma de lazer mais consumida, precedida apenas pelos livros (68%). As informações da Agência Nacional do Cinema (Ancine) referentes a 2018 corroboram os números. No ano passado, as grandes salas de cinema mobilizaram um público de mais de 160 milhões de espectadores apenas no Brasil.

Embora sejamos grandes consumidores de produtos audiovisuais, nem sempre nos vemos retratados em tela. Também segundo dados da Ancine, apenas um a cada dez filmes em exibição em 2018 foi produzido no Brasil. Quando falamos especificamente dos filmes nacionais dirigidos por pessoas negras, a aparição é ainda mais rara: a pesquisa mais recente do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), aponta que, de 2002 a 2012, apenas dois em cada cem cineastas com filmes em cartaz nos cinemas comerciais era negro.

Caso a incidência de filmes nacionais e a proporção de diretores negros nos cinemas comerciais tivesse se mantido, poderíamos supor que, em 2018, havia apenas duas chances em mil de que encontrássemos, dentre os blockbusters em cartaz, algum filme dirigido por um homem negro brasileiro. Já dentre as mulheres negras, segundo os levantamentos, a possibilidade sequer existiria.

“A relação que a gente estabelece com os filmes, em geral, não é a mesma relação de uma pessoa branca”, explica Tatiana Carvalho, professora de Cinema e Audiovisual no Centro Universitário Una, em Belo Horizonte, e coordenadora do projeto de extensão PRETANÇA – Afrobrasilidades e Direitos Humanos. “A gente não se vê representada. Não existe representatividade. Os corpos negros estão lá: segurando arma, em subemprego, em posições servis… Para quê eu vou lá me ver e me ofender? Eu não vou”.

Ainda não há dados exatos sobre a exibição de filmes dirigidos especificamente por pessoas negras no ano passado. No entanto, sabemos que despontou no Brasil em 2018 o segundo longa nacional de ficção realizado por uma mulher negra. “Café com canela”, dirigido por Glenda Nicácio e por Ary Rosa, rompeu um hiato de mais de três décadas sem mulheres negras por trás das concepção de longas-metragens.

A despeito da sua importância histórica, “Café com canela” teve uma circulação tímida se comparada a filmes nacionais produzidos por grandes produtoras audiovisuais. Em Belo Horizonte, por exemplo, o filme de Nicácio e Rosa foi exibido em apenas uma sala comercial: o Cine Belas Artes. Único cinema comercial de rua remanescente na cidade, o espaço é patrimônio do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFMG e tem como foco a exibição de filmes do circuito alternativo, também conhecidos como “filmes de arte”.

Aberto a obras raramente incorporadas por cinemas comerciais “tradicionais”, o Cine Belas Artes localiza-se no Lourdes, um dos bairros mais caros da capital mineira – o que, por si só, já é um fator que impacta na definição do público frequentador. Já as demais salas comerciais de Belo Horizonte estão instaladas em shoppings centers: atualmente, há 14 desses cinemas espalhados pela cidade. Dado o histórico de exibições desses espaços, dificilmente encontraríamos neles um filme como “Café com Canela”.

A ausência de diretores negros no catálogo das grandes salas de exibição é fato. Em um dos shoppings com o ingresso mais acessível da cidade – o Shopping Norte -, por exemplo, dos 71 filmes que estiveram em cartaz em 2018, apenas 9 eram nacionais. Como prevíamos, nenhum deles era dirigido por cineasta negro ou negra.

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